Paulo Freire é homenageado em audiência pública na CDH

“É assustador que Paulo Freire seja alvo do mesmo tipo de censura que sofreu na ditadura

23926501_1414038935360131_3944844163394909290_oA Sugestão Legislativa 47/17, com o intuito destituir Paulo Freire do título de patrono da educação brasileira foi rechaçada por unanimidade pelos participantes da audiência pública realizada nesta terça-feira 928), na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, para discutir a manutenção da Lei 12.612/17, que concedeu o título ao educador. O debate aconteceu a pedido da senadora Fátima Bezerra, relatora, na CDH, da sugestão. Logo no início da reunião, Fátima adiantou seu parecer contrário à retirada da honraria ao educador, pedindo o arquivamento da sugestão. O debate contou com a participação da viúva do educador, Ana Maria de Araújo Freire, conhecida como Nita, da professora Marlúcia Menezes de Paiva, da Universidade do Rio Grande do Norte, Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e a deputada Luiza Erundina, autoria do projeto que deu origem à lei 12.612/17.

“É assustador que, em pleno século XXI, Paulo Freire seja alvo do mesmo tipo de censura ideológica que sofreu durante a ditadura militar. Isso é fruto deste momento de intolerância, em que o fascismo e os movimentos ultraconservadores crescem no país”, ressaltou Fátima, ao abrir a audiência pública. Ela lembrou que Paulo Freire é considerado ainda hoje um dos maiores educadores do Brasil e do mundo. “Sua maior lição foi que o ato de educar não pode ser visto pura e simplesmente como transmissão de conhecimento, mas tem que estar amparado em algo fundamental para a democracia, que é o diálogo entre professor e aluno. O pecado de Paulo Freire foi tentar tornar realidade o sonho de se erradicar o analfabetismo do nosso país”, destacou a senadora.

Fátima destacou ainda que o método de ensino formulado por Paulo Freire, apesar de simples, revela muita sabedoria porque veio na direção de defender a educação como instrumento para promover a emancipação econômica, política e social, de preparar o cidadão para a vida. “Como dizia Paulo Freire, se a educação sozinha não transforma o mundo, tampouco ele será transformado sem educação”, enfatizou a senadora.

Legado humanista – Nita Freire, educadora e viúva de Paulo, fez uma defesa emocionada do legado humanista de seu marido, ressaltando que ele nunca fez doutrinação, mas era um homem que pregava a justiça, incentivava a democracia e a igualdade de direitos. “É contra isso que os que o aviltam a imagem de Paulo Freire estão lutando. Quem luta contra as ideias de Paulo está lutando contra as ações, o sentimento, a fidelidade à Nação brasileira. Faço minhas as palavras de meu marido, para destacar que quem está do outro lado do rio, não está lá por acaso”.

A professora da UFRN Marlúcia Paiva fez uma retrospectiva da trajetória de Paulo Freire., ressaltando que o educador recebeu 46 títulos de doutor honoris causa em diversos países e que ele é o terceiro autor da área de ciência humanas mais lido no mundo. Ela relembrou o programa 40 horas de Angicos – a primeira experiência prática do educador, de alfabetizar adultos de forma rápida e barata – e que é fruto de pesquisas de institutos de educação em todo o mundo. “Fiquei assombrada com o anacronismo da proposta logo em um momento em que o acervo do educador é reconhecido patrimônio documental da América Latina e do Caribe do Programa Memória do Mundo da Unesco “, enfatizou.

Já Daniel Cara, um dos fundadores, juntamente com Erundina e Nita Freire, do Coletivo por uma Educação Democrática Emancipadora, que reuniu mais de 22 mil assinaturas para a manutenção do título, lembrou que Paulo Freire, sem dúvida, merece estar no panteão dos maiores educadores do mundo. “Dizer que Paulo Freire é o responsável pelo fracasso do sistema educacional brasileiro é de uma ignorância sem tamanho. Ele é um pensador que teve a capacidade de elaborar uma teoria – talvez a mais poderosa na área de educação – que pôde ser comprovada na prática”, disse.
Luiza Erundina lembrou que, desde que começaram as primeiras ações de ataque ao legado de Paulo Freire, participa de uma articulação para defender a memória de Paulo Freire. Ela lembrou que o educador foi secretário de Educação de São Paulo, na época em que foi prefeita da capital paulista, ocasião em que sua atuação marcou a história da educação de São Paulo, com a implantação de um abrangente programa de alfabetização de adultos. “O que está existindo neste país é uma luta ideológica. Querem tirar dele este título, que é muito pouco para o que ele representa para a educação no Brasil e no mundo, mas nós não vamos deixar”.

Participaram também da audiência pública representantes de movimentos sociais, deputados e senadores. Todos os que falaram na audiência foram contrários à proposta, apresentada na internet por uma representante do movimento Escola sem Partido, e que contou com 20 mil apoiadores.